terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

O Flautista de Hamelin

Um dia, a cidade de Hamelin foi invadida por uma praga de ratos.

Uns eram grandes como coelhos. Outros tinham uns bigodes mais compridos do que um dia sem pão. Havia também uns negros, de um negro que assustava só de olhar. Quanto aos mais pequenos, eram mais feios do que o mais horrível dos demónios.

Metiam-se por todo o lado: na cozinha, entre a comida, dentro da cama bem quentinhos, nos armários, misturados na roupa de domingo, nos estábulos, assustando os animais... Os mais atrevidos escondiam-se entre os brinquedos das crianças da casa que, ao descobri-los, se assustavam ficando brancas como a cal.

Fartos de tanto rato e de tantos sustos, os habitantes da cidade foram ter com o senhor alcaide a fim de lhe pedirem que encontrasse uma solução para o problema que tanto os preocupava.

Mas o alcaide, que estava reunido com os seus conselheiros, não sabia o que fazer para resolver os males provocados por aquela invasão.

Foi então que, quando tudo parecia perdido, surgiu um rapaz alto e magro como um espeto, que envergava um fato vermelho, um chapéu cheio de guizos e uma flauta pendurada ao pescoço.

O alcaide cedeu-lhe a palavra e o rapaz anunciou:
- Minhas senhoras e meus senhores, tenho a solução para o vosso problema. Resta-nos apenas negociar quanto é que isto vos vai custar.
O alcaide coçou o queixo e indagou:
- Quanto custa esse remédio milagroso?
O flautista respondeu, como se nada fosse:
- Pouca coisa: dez mil notas.

O alcaide fitou, um a um, os membros do conselho para estudar as suas caras surpreendidas, e depois tomou uma decisão:
- Não quero ouvir falar mais deste assunto. Se conseguires resolver este repugnante problema que nos atormenta, pagar-te-emos o que pedes.

O flautista pôs o chapéu e saiu da câmara com a flauta entre os dedos. Ao chegar à rua, colocou a flauta nos lábios e começou a tocar.

Dela saiu uma melodia nunca antes escutada e, decorridos apenas uns instantes, dezenas de ratos começaram a surgir de todos os cantos da cidade: primeiro os maiores, depois os que tinham os bigodes mais compridos do que um dia sem pão, e a seguir os que eram negros como a noite. Os mais pequenos, que saltitavam como se fosse dia de festa, fechavam o cortejo.

Sem nunca parar de tocar, o flautista conduziu-os até à margem do rio que corria nos arredores da cidade. Um a um, todos caíram dentro de água e se afogaram.

Bem, todos todos não, porque havia um que, como era mais velho do que o tempo, não podia correr como os outros e só chegara ao rio depois de a música ter deixado de tocar, salvando assim a pele.

Terminada a tarefa, o flautista voltou à cidade, para reclamar a sua recompensa.

Todos o aplaudiram à chegada, excepto o alcaide que parecia ter perdido a memória:
- Então, flautista, quase não tiveste trabalho - disse-lhe.

O flautista não pensou duas vezes:
- Senhor alcaide, as promessas foram feitas para se cumprirem, e eu cumpri a minha parte.

O alcaide respondeu-lhe:
- Dou-te vinte ou vinte e cinco notas e já ficas bem pago!

Ao descobrir que tinha sido enganado, o flautista deu meia volta e abandonou a câmara. Uma vez na rua começou a tocar outra melodia tão misteriosa, podem crer, como a primeira. A música entrava através das janelas e das portas das casas e chegava a todos os cantos da cidade. E de toda a parte saíam meninos e meninas que, sem deixarem de saltar e dando mostras de grande alegria, seguiam o flautista pelas ruas de Hamelin.

As pessoas gritavam que o detivessem, mas todos os esforços eram inúteis, porque ninguém se conseguia mexer.

Foi então que o flautista, seguido de uma procissão de crianças, começou a subir uma montanha.

Ao chegarem ao cume, esta abriu-se como se estivesse a bocejar e, de um só trago, engoliu todos os meninos e meninas. Em seguida fechou a boca, e não deixou rasto da miudagem.

Bem, todos todos não engoliu. Do lado de fora ficou um menino coxo que, como os outros corriam muito, não tinha conseguido seguir o grupo e só havia chegado ao cume quando a música já tinha deixado de tocar.

E contam que aquele rato velho, aquele que não se tinha afogado, quando se reunia com os seus netos e estes lhe perguntavam por que motivo seguira a música, lhes explicava que aquela melodia falava de montanhas de queijo mole, de bocados de pão quente e de doces mais doces do que o mel. E que a música dizia: «Vinde, vinde, que tudo será para vós.»

E contam também que, quando o menino coxo chegou à cidade, as pessoas, com os olhos vermelhos de tanto chorarem, lhe perguntaram porque seguira a música. Ele, ainda meio atordoado, respondia que aquela música garantia que chegariam a um mundo maravilhoso, com flores de todas as espécies e pássaros de mil cores, onde ninguém seria pobre nem estaria doente ou triste.




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