terça-feira, 12 de agosto de 2008

Brincar aos médicos....



Ao princípio exploratória, depois erotizada, é a genuína brincadeira da sexualidade. E a mais saudável na perspectiva do crescimento, pois organiza mecanismos de defesa para abordar os conflitos próprios desta fase. Tem o quarto cheio de bonecos e puzzles, livros de his-tórias encantadas e filmes em que a tónica se repete. Entretém-se muito sozinha, mas adora que os amiguinhos que fez no colégio a visitem e juntos possam fazer os “teatrinhos” que agora trazem Constança, de cinco anos e meio, tão entretida. Da sala de aulas virtual, em que uns assumem o papel de professores e outros de alunos, o grupinho transferiu-se para o hospital. E agora são médicos, doentes e enfermeiros.

Margarida, a mãe, sorri. Aos 36 anos, esta economista recorda a sua própria infância, o tempo em que encenou as figuras de bata branca ou se deixou examinar e encantar por elas. Mas acaba por admitir sentir-se “por vezes incomodada” com o “despertar” da filha “para a sexualidade”.

O problema é que os pais acabam por fazer uma leitura da sexualidade infantil a partir da sua própria sexualidade adulta e, portanto, dando-lhe uma importância que ela não tem. É o que garante o psicólogo clínico e psicoterapeuta Alexandre Nunes de Albuquerque. “Sobretudo quando o carácter da brincadeira é uma exploração mais genital, de uma forma explícita”, explica, esclarecendo que só mesmo durante a puberdade é que o tipo de sexualidade sentida pelos jovens está mais próxima da sentida pelos adultos. Nunca antes disso, “e mesmo assim está muito longe, há uma grande diferença a nível mental e psicológico. É na fase genital que há realmente uma maior consciencialização da coisa sexual”, diz o especialista.

Estádios de desenvolvimento

De acordo com o psicólogo e filósofo suíço Jean Piaget, a criança passa por quatro estádios de evolução mental:

l Sensório-motor. Vai sensivelmente até aos 2 anos de vida, altura em que contacta o mundo que a rodeia e procura adquirir controlo motor
l Pré-operatório. Entre os 2 e os 8 anos. Adquire capacidade verbal, raciocina intuitivamente, mas ainda não consegue coordenar operações elementares
l Operatório concreto. Vai até aos 12 anos. A criança já começa a lidar com conceitos abstractos, número e relacionamentos. Caracteriza-se por uma lógica interna constante e aptidão para resolver problemas concretos
l Operatório formal. Dos 12 aos 15 anos. Raciocina de forma lógica e consistente, tem aptidão para o raciocínio abstracto e consegue fazer deduções lógicas sem o recurso a objectos concretos
Actividade mágica e prazenteira, brincar é igualmente estruturante, asseguram os especialistas. É a brincar que a criança desenvolve a capacidade de partilhar, integrar e interagir. Treina a experiência e, portanto, a competência para alguma coisa, seja uma actividade seja a relação com os outros. As brincadeiras, os jogos – desde os mais simples até este “do faz de conta” que se é professor ou médico – servem para aprender e ensaiar variadas competências em cada etapa do desenvolvimento. Pois como concluiu Jean Piaget, na sua teoria acerca do crescimento da criança, “todo o estádio tem um nível de preparação e um nível de consecução. O estádio não surge definido e acabado, mas evolui no sentido da sua superação”.

Do jogo, o filósofo e psicólogo suíço elege “o do simbólico” como o mais importante – é o jogo do “faz de conta”, em que as crianças brincam aos pais, às escolas e aos médicos. Acontece durante o estádio que ele denomina de pré-operatório, e é um jogo em que predomina a assimilação. Segundo Piaget, ao jogar a criança está a conhecer e a organizar o mundo. Mas este funciona simultaneamente como uma espécie de terapia, na medida em que a liberta das suas angústias.

“O brincar aos médicos tem a ver com a fase de exploração que surge numa etapa do desenvolvimento psico-sexual cognitivo”, observa Alexandre Nunes de Albuquerque. Apesar de, por esta altura, a criança começar a “desprender-se do real sensorial para adquirir e construir conhecimento”, tem necessidade de fazer de conta. “O processo mental começa a ter uma função muito importante no crescimento e, aí, faz de conta de cuidar e tratar. Os médicos, quando curam o dói-dói, estão a tratar o corpo.” Quando a criança os imita, “está a tentar ensaiar a capacidade de controlar o seu corpo e poder explorá-lo sem medo”.

O explorar da sexualidade surge de múltiplas formas ao longo do desenvolvimento psico-sexual da criança e o especialista defende que, na maioria das vezes, o que está em jogo no brincar aos médicos “não é tanto a sexualização do corpo do outro” mas a “noção de controlo”. “Ou seja, o poder saber que controla através da fantasia do cuidar para poder finalmente explorar, porque só pode explorar se tiver segurança.” Quando os meninos cuidam de um joelho que encenam ferido, por exemplo, estão ainda numa primeira fase que é a de terem consciência de que sabem curar, tratar. “Conseguem cuidar-se o suficiente para poderem explorar, para então poderem avançar.”

Mas existem outras formas de “faz de conta” que permitem aceder aos mesmos conteúdos, pelo que uma criança não tem de necessariamente brincar aos médicos, argumenta o psicoterapeuta. Pode preferir ser bombeiro ou veterinário, por exemplo, profissões ou papéis que impliquem igualmente cuidar. “Ou então bailarino. Neste caso, a criança está também a experimentar, a testar as diferenças entre o seu próprio corpo e o do outro.” São tudo rituais assentes na “exploração da diferença”.

Explorar é, aliás, uma constante ao longo da vida da criança e que começa muito cedo no tempo. Uma das primeiras aventuras nesse sentido, como re-corda o psicoterapeuta, “é a exploração das coisas pelo sensorial”. O bebé atira a comida para o chão, por exemplo, para perceber como ela se comporta – cai, espalha-se, é mais líquida ou mais sólida.

Da mesma forma que muitos pais não aceitam muito bem esta batalha da comida que pode estragar qualquer investimento doméstico de monta, também podem não ser muito compreensivos quando as brincadeiras evoluem para a exploração do corpo com uma carga mais ou menos erotizada. Em ambas as situações é preciso aceitar, compreender, deixar experimentar e explorar livremente, apenas supervisionando o necessário. Se, num caso, devem zelar para que a criança “não vá testar as tomadas eléctricas, por exemplo”, no outro, “que ela não brinque com uma faca, para imitar um bisturi e fazer operações”, explica Alexandre Nunes de Albuquerque, dizendo que a solução passa também por lhes “proporcionar os brinquedos correctos, para exercitar este faz de conta”. Porque a brincadeira, em si mesma, “nada tem de perigoso, psicologicamente”. O psicoterapeuta relembra que os pais não devem olhar a sexualidade dos seus filhos nesta idade através dos seus próprios “filtros”. E garante que a sexualidade infantil e a forma como ela é vivida e explorada são extraordinariamente importantes para um futuro tranquilo ao nível psico-sexual, “isto é, ao nível psicológico. A nível das pulsões, do desejo, que não têm de ser só sexuais, mas também na capacidade de poder mais tarde, como adulta, acreditar nos seus desejos e determinações, na capacidade de poder e querer tirar prazer das coisas da vida em geral”. É fundamental que a família saiba falar de sexualidade com a criança, respondendo às questões que lhe coloca com naturalidade e com o vocabulário apropriado a cada uma dessas mesmas etapas. Os pais precisam de estar preparados para abordá-la logo que a criança mostre curiosidade sobre o tema.

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